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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Fontes de financiamento socioambientais crescem no Brasil


Seguindo uma tendência mundial, bancos e instituições financeiras no Brasil estão abrindo linhas de crédito para projetos sustentáveis. A consciência dos impactos socioambientais que cada empreendimento gera na região na qual está inserido e o vislumbre de bons negócios tem feito com que banqueiros e empresários se unam em prol do desenvolvimento sustentável.
Esses investimentos oferecem vantagens financeiras que incluem taxas mais baixas e prazos maiores. Assim, quem planeja abrir ou ampliar a área de atuação com ênfase na proteção ambiental e desenvolvimento social já pode contar com planos especiais oferecido por bancos como o BNDES, Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e SUDENE.
Seja em forma de apoio não-reembolsável, como o Fundo Amazônia, a Iniciativa BNDES Mata Atlântica ou o Fundo de Desenvolvimento Tecnológico (FUNTEC), ou de apoio reembolsável, com a Linha de Apoio a Investimentos em Meio Ambiente, o Apoio a projetos de eficiência energética (PROESCO) e FNE Verde, são muitas as opções para o futuro empresário.
Os empreendimentos podem seguir diversos ramos, como agropecuária orgânica, incluindo a conversão dos sistemas tradicionais para orgânicos, geração de energia alternativa, manejo florestal, tecnologias limpas, estudos ambientais, reflorestamento, agrossilvicultura e sistemas agroflorestais, coleta e reciclagem de resíduos sólidos, implantação de sistemas de gestão ambiental e certificação, recuperação de áreas degradadas, entre outras.
Protocolo Verde
Essa nova proposta de investimentos ganhou reforço em 2009, quando os bancos brasileiros assinaram o Protocolo Verde. O documento prevê a concessão de financiamento apenas a setores comprometidos com a sustentabilidade ambiental, e os bancos assumem o compromisso de oferecer linhas de financiamento e programas que fomentem a qualidade de vida da população e o uso sustentável do meio ambiente.
Além disso, eles devem considerar os impactos e custos socioambientais na gestão de seus ativos e na análise de risco de cada projeto, bem como adotar medidas de consumo sustentável em suas atividades rotineiras, como gasto de papel, energia e insumos.
“Poderíamos financiar qualquer coisa que gere emprego e renda, mas queremos financiar emprego e renda boa”, afirmou o superintendente da SUDENE, Paulo Sérgio de Noronha Fontana. Para ele, o futuro será de projetos cada dia mais limpos.
Quem concorda com o pensamento de Fontana é o gerente de suporte de negócios do BNB, Marcelo Ferreira. Ao apresentar as propostas do banco para projetos sustentáveis durante o Simpósio Internacional de Sustentabilidade, realizado em Salvador entre os dias 13 e 15 de setembro, ele ressaltou a importância do investimento em projetos com cunho socioambiental e defendeu o uso do crédito como um instrumento mitigador das diferenças sociais.
Esses financiamentos tem se mostrado vantajosos também no quesito econômico. “Segundo o Índice de Sustentabilidade da Dow Jones, investir em projetos com práticas socioambientais te dá um retorno 30% superior que o índice normal”, informou o chefe de Deptº de Estudos Políticos de Meio Ambiente do BNDES, Márcio Macedo da Costa.
Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), essas aplicações são contabilizadas pelo Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) – uma carteira de ações que busca ser um referencial para os investimentos socialmente responsáveis.
O ISE tem por objetivo refletir o retorno das ações de empresas que investem na responsabilidade socioempresarial, e também atuar como promotor das boas práticas no meio empresarial brasileiro. Até o dia 15 de setembro deste ano, o índice registrou valorização de 1,93%. No ano passado, o indicador finalizou com elevação de 66,4%.
Tendência mundial
O pacto segue à tendência internacional de créditos verdes, já que desde os Princípios do Equador, criados pelo Banco Mundial em 2003, diversos bancos internacionais passaram a exigir, como condição para empréstimos, que seus clientes inserissem a variável ambiental em seus projetos de financiamento.
Grandes instituições financeiras mundiais, como ABN Amro, Bank of America, Barclays, BBVA, CIBC, Citigroup, HSBC, Mizuho Corporate Bank, Royal Bank of Canadá e Royal Bank of Scotland, já aderiram aos princípios.
fonte: www.ecodesenvolvimento.org.br

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As verdinhas que surgem do verde


Evandro Razzoto é administrador de empresas, professor universitário e incentivador da causa ambiental. Atuando em ambientes que, muitas vezes, só se preocupam com o lucro, Razzoto percebeu que a partir dos trabalhos envolvendo marketing estratégico poderia introduzir conceitos da sustentabilidade em diversas empresas. De lá para cá, já se vão sete anos que o curitibano espalha ideias verdes. Lançou um livro sobre sustentabilidade e hoje conversa com o EcoD sobre gestão verde, compromisso social e sobre suas atitudes tão inspiradoras.


EcoD - Como começou o interesse pela gestão verde?
Evandro Razzoto - Sou administrador de empresas, professor da UTFPR e sempre atuei com marketing estratégico. Pela necessidade e demanda de mercado, surgiram alguns trabalhos relacionados a marketing verde, então fui me aprofundando no tema. Identifiquei que antes de tratar sobre marketing verde, era necessário que, tanto eu quanto as pessoas e as empresas necessitavam conhecer o entorno do tema sustentabilidade. Desta forma, unificando academia, gestão estratégica e marketing verde e conciliando com a sustentabilidade empresarial, o mercado me levou a prestar consultoria na área, realizar palestras e treinamentos. Publicar um livro e produzi mais três que lançarei na sequência.


O que você aprendeu depois que notou que a sustentabilidade é um assunto importante?
Aprendi o quanto fomos inconsequentes com nossas atitudes colaborando para destruição do planeta. Mas que acima de tudo, se cada um fizer a sua parte, é possível sim reverter a situação em busca do equilibro para uma vida sustentável e um planeta melhor.
De que forma podemos conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental?
Em primeiro lugar, é importante entender o que envolve estes temas. Desta forma, é necessário saber o que é sustentabilidade. O tripé é formado pelo crescimento econômico, responsabilidade social e a preservação ambiental. Assim fica mais claro que os dois temas de sua pergunta, só existem se trabalhados de forma equilibrada e em conjunto. Equilíbrio é o nome do jogo. É importante que haja crescimento econômico sim, mas ele deve ser feito de forma equilibrada. Deve-se buscar a preservação do meio ambiente, o crescimento das regiões, bem como a responsabilidade social.


Para implantar a gestão sustentável em alguma empresa, é necessário modificar o pensamento de todos que trabalham naquela empresa, ou essa mudança pode ser dada de outra forma?
Em primeiro lugar é necessário que a alta direção da empresa entenda, acredite, compre a idéia e mais do que tudo, insira a sustentabilidade como ferramenta estratégica de seu negócio. Não há sustentabilidade empresarial sem envolvimento das pessoas. É impossível mudar os colaboradores da empresa de um dia para o outro e sem a vontade deles. Mais do que isto, é necessário que seja feito um trabalho de conscientização ambiental, envolvendo as pessoas e uma prática diária, antes em suas casas e posteriormente nas empresas. Assim, eles verão a importância da mudança, inclusive na redução de custos. Neste caso, a mudança cultural é o nome do jogo.


Nos conte uma experiência na área.
Em todas as consultorias, projetos, treinamentos e cursos que ministro, de forma prática e honesta, eu exploro a realidade, falo de forma franca, sem rodeios. O problema é que a maioria das pessoas trata o tema de forma superficial, como se tudo que se faz fosse bom. Precisamos enxergar a realidade e, a partir dela, trabalharmos de forma efetiva, antes de mais nada, na mudança cultura das pessoas para que o planeta seja sustentável. O que me deixa triste, é apenas a indiferença da humanidade na busca por um mundo melhor.


A partir do momento que o comportamento de um empresário é modificado, uma série de outras mudanças são propiciadas. Essa interdependência de funções e relações é benéfica ao seu trabalho ou um desafio?
Sempre é desafiador. Em raras exceções consigo vender a idéia de forma aleatória. Meus novos clientes são reflexos da indicação de empresários que perceberam que meu trabalho possui alto valor agregado, possibilitando a mudança e melhoria do ambiente interno da empresa, marketing verde e a redução de custos que leva a empresa a um bom faturamento. Possuo poucos concorrentes. Ou eles são totalmente técnicos ou não atuam na área e acham que entram fácil. Meus clientes, sejam públicos ou privados, sabem o que eu faço, o que posso fazer e como meus serviços custam pouco em relação ao benefício.
Sobre essa questão dos lucros e gastos, muitas empresas tratam as questões ambientais como supérfluo. Numa escala de prioridades, os gastos com essa demanda, geralmente, são cortados no caso de alguma crise. Como fazer para concretizar o pensamento verde em uma empresa?
Acredito que apenas empresas ultrapassadas pensem assim. Toda empresa que pensa estrategicamente e grande, necessariamente precisa ser verde. Além de gerar visibilidade, possibilita o que todas sonham, ou seja, aumentarem seu faturamento reduzindo custos. A crise nada mais é do que uma ponte para as oportunidades. Para concretizar o pensamento verde em uma empresa é necessário que ela mude e que seja ecologicamente correta, buscando novas tecnologias, alternativas verdes. Além disto, é preciso que haja quebra de paradigmas.


Quais os maiores desafios para este tipo de consultoria?
Em virtude de ser um mercado muito novo, algumas empresas desconhecem o que pode ser feito. Acredito que o maior desafio seja captar mão de obra qualificada para que eu possua condições de atender a demanda existente. Hoje consigo atender meus clientes, mas para o segundo semestre, terei dificuldades pelo número de novos clientes. A falta de informação também é um problema. Toda empresa se diz sustentável, ou que está em busca do desenvolvimento sustentável. Essas empresas estão enganando a quem? Sustentabilidade é sim importante, mas para o empresário precisa entendê-la como uma oportunidade de reduzir custos, aumentar faturamento e agregar valor a marca ou produto.


Mas você acha que os empresários dever ver a sustentabilidade apenas como um gerador de lucros?
Não necessariamente. Em primeiro lugar, os empresários, de forma geral, estão preocupados somente com aumento da receita e redução de custos. Desta forma, entendo que a sustentabilidade, em especial nas empresas brasileiras de pequeno e médio porte, são convencidas de promover o assunto quando sabem que ela gera aumento de receita e redução de custos. Não só o empresário, mas, todas as pessoas, precisamos adotar a sustentabilidade como prática diária. Isto é de extrema importância para o planeta. É hipocrisia, num país onde há poucas leis que cercam o tema, que as empresas promovam o tema só porque é bom para o mundo. Considero caótica a situação onde não há mudança de cultura para a sustentabilidade. Espero e tenho me empenhado nisto, para que todos se conscientizem de que a mudança é necessária, independente do que gere de valor a empresa.


O professor José Roberto Kassai disse que ele espera que o mundo dê menos valor ao dinheiro e mais valor a outros tipos de moeda como o conhecimento, tecnologias e meio ambiente. O que você acha sobre isso? Como fazer com que um empresário que nunca pensou de forma verde, atribua outro tipo de valor ao lucro recebido?
Perfeito. Em minhas aulas, palestras, treinamentos e cursos in company, bem como no meu dia a dia, tenho falado de forma incisiva que o mundo e as pessoas perderam seu valor. Estão se esquecendo que o respeito, o amor, a ajuda ao próximo e o caráter estão se esvaindo pelo ralo. É preciso que seja resgatado tudo isto, assim as pessoas poderão viver de forma respeitosa. Em se tratando de se pensar verde, considero sim, que hoje, as empresas começam a se voltar para esta realidade. No entanto, e é uma pena, a maioria das empresas que se dizem sustentáveis, estão buscando o caminho mais rápido para a sustentabilidade. Ou seja, se gasta R$100 mil em ações efetivamente sustentáveis e um milhão de reais em marketing. Isto é ser sustentável? Isto só vai acabar quando a sociedade se posicionar e parar de aceitar o que as empresas dizem, e que seja cobrada uma mudança efetiva, com durabilidade e de forma contínua. A sustentabilidade somente será real se as pessoas, as empresas, o governo, as instituições de ensino e as famílias forem sustentáveis em tudo. Um futuro verde e sustentável a todos, pela busca contínua de um mundo melhor.


O que te inspira a continuar neste trabalho?
Mesmo com toda a dificuldade existente, a valorização de ter meu trabalho reconhecido, com tantos prêmios, e o mais importante que é ver o brilho nos olhos das pessoas querendo mudar, querendo fazer parte desta mudança. Além disto, o reconhecimento profissional em todos os níveis. Na universidade, no mercado de trabalho, nas empresas e no governo. Tudo isto me leva a acreditar e entender que quando fazemos o que gostamos, com amor, com dedicação e perseverança, alcançamos o sucesso sempre.